Parte das obras da Samarco para recuperar os estragos provocados pela barragem de Fundão na região da Hidroelétrica Risoleta Neves tiveram que ficar paradas durante mais de 6 horas para que a Fundação Renova, que é coordenada pela mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton, marcasse uma reunião com a comunidade para discutir assuntos fundamentais de interesse dos moradores.

A paralisação começou por volta das 6 horas da manhã da terça-feira (02) e envolveu homens, mulheres e crianças que deixaram seus afazeres para lutar pelos seus direitos. Entre eles estavam Alair e Rejane Almeida, que tiveram que deixar sua casa por causa do rompimento da barragem.

“Eu morava sossegada na Fazenda Floresta. O dono tinha nos dito alguns dias antes do rompimento em Mariana que eu poderia ficar lá por 60 anos. Tínhamos muito espaço para as crianças, grande plantação de frutas, horta, vendíamos até 700 reais de queijo por semana”, relembra indignada Rejane.

Alair conta que depois de um ano do rompimento, a Samarco comprou a fazenda com um preço bem acima do mercado e ele foi obrigado a sair da casa depois de meses de pressão. “Hoje, moramos em uma casa dentro de Santana do Deserto que não cabe nossas coisas, nossos filhos não tem onde brincar, eu pago aluguel e estou desempregado. Um desastre total e a Samarco não me reconhece”, denuncia Alair.

Rejane ainda registra um trauma maior. “Por causa do estresse e o medo de ficar, de uma hora para outra, sem casa, perdi meu bebê de 3 meses. Hoje ele deveria estar aqui comigo, com nossa família e junto de nossos outros 3 filhos. Mas, não está. E nossa situação não é fácil”, lamenta.

Neste clima de indignação e revolta é que Rejane, Alair e mais de 60 atingidos participaram da Assembleia na noite desta quarta-feira (03). Estiverem presentes representantes da Samarco Mineração e da Fundação Renova, das equipes do chamado Diálogo Social e do Programa de Indenização Mediada (PIM), entre outros.

“A primeira observação positiva a fazer é que os atingidos recusaram seguir o formato de reunião proposto pela empresa, com a apresentação de slides, etc. Escolheram o local, organizaram o espaço e prepararam a pauta. Esta é uma atitude básica, mas muito importante que mostra para a empresa quem deve ser o protagonista”, comenta Thiago Alves, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

 

“A Samarco não vai impor nada: vamos trazer duas opções e vocês vão escolher”

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Alair Almeida não colocou sua dramática situação pessoal como destaque na reunião, mas deu o tom da indignação coletiva afirmando logo na abertura que “a Samarco não era bem vinda ali e que se não tivesse acontecido o crime estaríamos muito melhor”.

Os questionamentos foram apresentados aos representantes da Samarco: a condição das estradas que dão acesso a Santana, a distribuição dos cartões, o reconhecimento dos garimpeiros, o atraso no processo de indenização, o desemprego e a necessidade e valorizar a mão de obra no local, a falta de lazer e a exigência de que se resolva a situação do campo de futebol onde a empresa quer colocar rejeito, entre outras pautas.

A empresa se comprometeu a valorizar a mão de obra local, priorizando a contratação de pessoas da região e serviços, como a alimentação e pousada; em melhorar o controle e segurança das estradas dando prioridade aos moradores e não às máquinas da obra. Em relação aos garimpeiros, marcaram reuniões para dias 17 e 18 de maio para discutir o reconhecimento e a distribuição de cartões.

A Fundação tentou justificar porque Rio Doce e Santa Cruz é a única região da bacia do Rio Doce em que a Samarco distribui cesta básica. Afirmaram que foi uma iniciativa da Samarco como medida emergencial. “O problema é que a medida básica feita na bacia toda foi a distribuição dos cartões. Porque não fizeram isto? Os atingidos nunca pediram cesta básica. Um atingido denunciou na reunião que com 50 reais eles pagam a cesta entregue e que eles não querem isto”, afirma Thiago Alves.

Uma grande reclamação feita pelos presentes foi sobre a qualidade do cadastro feito pela Synergia, muito semelhante as reclamações apresentadas em Barra Longa. A Samarco está devolvendo os cadernos do cadastro respondido e é partir dele que a pessoa fará a negociação do Plano de Indenização Mediada (PIM). Mas, ficou a claro o desconhecimento dos objetivos e os muitos erros apresentados até agora. Ficou decidido que a Comissão dos Atingidos do município irá se reunir para discutir como resolver esta questão, incluindo a contratação de uma Assessoria Técnica independente tal como já existe em Mariana e será em Barra Longa.

Para Alair Almeida foi dado um passo. “Hoje, fizemos um exercício importante de organização. Vamos continuar nossas reuniões e debates. E se as coisas não avançarem vamos parar as obras novamente quantas vezes forem necessárias para garantir o nosso direito”, afirmou.

“Eu penso que foi uma reunião produtiva. E nestes espaços fica claro como a Samarco brinca de participação. Por exemplo, perguntada sobre a destinação do campo de futebol que existe há mais cem anos e eles querem jogar rejeito, o representante respondeu: ‘não vamos impor nada. Traremos duas opções e vocês vão escolher entre elas’. Isto é um absurdo, é uma inversão de valores. É a comunidade que tem que indicar as opções e ser feito como ela quer. De outro jeito, é uma farsa”, denuncia Thiago.

O Movimento continua acompanhando a situação da comunidade e junto da Comissão dos Atingidos do local permanece vigilante sobre o andamento da pauta dos atingidos.