Ao meio dia dessa quarta-feira (14), mais uma mortandade de peixes começou a ser verificada pela população de Pontal do Ipiranga, no litoral de Linhares, norte do Estado. A comunidade foi apenas parcialmente reconhecida como atingida pelo crime da Samarco/Vale-BHP do dia  cinco de novembro de 2015 e reclama, como as dezenas de outras vilas, balneários, bairros e cidades impactadas, da falta de informação sobre a real situação dos peixes e da água.

Fotos feitas por moradores procuram mostrar um tipo de sedimento muito fino e esbranquiçado que, possivelmente, é o responsável pelo entupimento das brânquias dos peixes, que os leva à morte por asfixia. Por ser muito fino, ele passa desapercebido, mas já foi identificado por pesquisadores do Centro Tamar-ICMBio como uma das causas das seguidas mortandades que vêm acontecendo na região impactada pela lama de rejeitos de mineração da Samarco/Vale-BHP.

esmo após mais de um ano do crime, com todo o rumor de contaminação das águas e dos peixes e crustáceos, muitos moradores insistem em se alimentar dos animais coletados após as mortandades. Foi o caso do último dia seis de dezembro, quando vários sacos de peixes que agonizavam na flor da água foram consumidos ou vendidos para consumo na região.

“Eles não sabem se a água está estragada ou não, então, até que se prove o contrário, estão comendo o peixe”, relata Mônica Silva de Jesus Pazinatto, presidente da Associação de Moradores de Pontal do Ipiranga. “A responsabilidade maior é da empresa e dos órgãos ambientais em não declarar se pode ou não pode comer o peixe”, cobra.

Na mortandade dessa quarta, o Acará foi a principal espécie afetada, sendo os filhotes as primeiras vítimas, seguidos dos adultos. Na anterior, iniciada dia 21 de novembro, outras espécies de peixes e também siris foram encontrados. Mas, segundo Mônica, a Fundação Renova só foi aparecer para coletar amostras no dia nove de dezembro, 18 dias depois!

A coleta também foi de uma forma que incomodou os moradores. “Não pegaram amostra do sedimento do fundo, só da água por cima”, reclama a presidenta da Associação. Além disso, como em todas as outras vezes, nenhum retorno à população foi dado ainda sobre os resultados dos exames. “Queremos uma análise independente, porque precisamos de respostas”, indigna-se a líder comunitária.

Também no último final de semana, dias nove e dez, Mônica conta que técnicos do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estiveram no local e anteciparam que o relatório do órgão provavelmente irá pedir interdição do Rio Ipiranga.

“É muito triste”, lamenta, comentando sobre a “água podre” do rio que dá nome à sua comunidade. Mônica também dá vazão ao sentimento de revolta entre os moradores. “Acham que aqui tem idiota, mas não tem. Sabemos que essa empresa e a Fundação Renova não têm compromisso com a nossa comunidade”.

Porcos com feridas em Campo Grande

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Na comunidade de Campo Grande, em São Mateus, não reconhecida pela Samarco/Vale-BHP como atingida, a populações denunciou, também nesta semana, mais um fenômeno desconhecido, provavelmente relacionado ao crime.

Após seguidas mortandades de caranguejos no manguezal de Barra Nova, desta vez, porcos criados em um sítio à beira do manguezal apareceram com feridas na pele. A pescadora artesanal e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Adenísia da Silva Sena, registrou depoimento do agricultor Romildo Tomaz, que teve não apenas seus porcos, mas também o pasto e a plantação de aroeira devastadas pela lama de rejeitos.

Adenísia é uma das moradoras que se uniu ao MAB e ao Fórum Norte da Foz para reivindicar o reconhecimento da comunidade como atingida e o acesso a informações sobre a contaminação da água e dos caranguejos. “E difícil viver uma situação que você não sabe nem o que está acontecendo”, lamenta.