Foto: Guilherme Weimann

Fafá da Barra é atingido pela rompimento da Barragem de Fundão da Samarco (Vale/BHP Billiton), que se rompeu no dia 5 de novembro de 2015. Morador de Barra Longa, Fafá viu sua cidade ser tomada pela lama vinda pelo Rio Doce, que beira o município. Músico, com quatro discos autorais lançados ao longo dos muitos anos de sua carreira, o filho da Barra traduziu em acordes o sentimento que vive desde a tragédia na música “Desumano”. Fafá fala sobre a chegada da lama, sua relação com a cidade e com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Como foi o dia em que a lama de rejeitos de minério chegou à Barra Longa?

Quando a lama chegou ninguém sabia que tinha uma barragem em cima da gente, isso era um assunto desconhecido pra nós, foi uma surpresa para todo mundo. A barragem estourou em Mariana às três horas da tarde, e só foi chegar à Barra Longa às 3 da madrugada. Ninguém tirou nada de dentro das casas. Não sei a explicação, mas a Samarco não avisou pra ninguém que a lama estava chegando. Eles tiveram 11 horas pra avisar a gente que aquilo ia arrebentar com a nossa cidade. E foi o que aconteceu.

A lama tomou conta da parte de baixo da cidade inteira, muita gente perdeu casa, documentos, suas memórias, toda referência que tinha. A Samarco colocou algumas pessoas em lugares provisórios, posteriormente reformou algumas casas, mas não tomou providências concretas. Já tem um ano que aconteceu e tem muita gente que a Samarco nem ligou pro problema deles ainda.

Pra você, que nasceu em Barra Longa, como foi ver a cidade em que você cresceu ser tomada pela lama?

E horrível, é péssimo. Apesar da lama não ter entrado na minha casa e de muitos, emocionalmente acabou com a gente. Não só a cidade, mas o rio também. Acabou com os animais, com os predadores de mosquito, tudo foi levado ou soterrado pela lama. Foi uma coisa que a gente não consegue conceber até hoje, e o pior de tudo é que eles tiveram tempo pra avisar a gente e não avisaram, isso é o que dói mais, porque muita gente poderia ter salvado muita coisa.

Como foi lidar com essa lama dali pra frente, quais foram as consequências?

No início, a Samarco distribuiu um cartão de beneficio para cada um dos atingidos, pelo menos essa era a ideia. Mas um ano depois muita gente não recebeu esse benefício. E a nossa cidade continua impactada, é um canteiro de obras, são mais de 600 homens trabalhando dentro da nossa cidade dia e noite. A população não tem nem como dormir direito, o estresse é total. Estão acontecendo também muitos casos de doença. No ano passado foi apenas um caso de dengue na cidade e apareceram 400 casos agora. Lá em casa todos nós tivemos dengue, um surto absurdo. Se nunca teve algo assim é evidente que foi causado pela lama. E esses problemas de saúde continuam: problemas de pele e respiratórios por causa da poeira. A Samarco disse que a poeira não causa nada, mas causa, sim. A população nossa está doente.

E nessa luta você conheceu o MAB e passou a ser militante do movimento.

O MAB chegou uns dois dias depois do rompimento da barragem e a população toda estava desorientada, a gente não tinha um caminho pra seguir e o MAB mostrou esse caminho. Mostrou a direção, que a gente tinha que brigar pelos nossos direitos. E foi um grande efeito, porque a princípio a Samarco deu apenas 40 cartões e com o MAB e a luta nós conseguimos quase 300 cartões. Nesse processo todo, se não fosse o MAB, estaríamos todos de pés e mãos quebrados. A partir desse momento, passei a ser um militante do MAB.

Você compôs a música “Desumano”, onde aponta que ‘um monstro’ chegou na cidade. Como foi escrever essa letra, fazer essa canção diante de tanta tristeza e indignação?

Eu acho que o compositor, o tocador, o músico compõe quando está pressionado, quando está muito alegre ou muito triste. Lembro que no dia estava muito pesado, muito carregado com toda aquela relação da cidade com a Samarco, a Vale e a BHP. E nesse dia a ficha caiu. Eu já estava tocando violão e acabou saindo “Desumano”. É um momento que você escreve, é uma historinha que a gente conta. Eu acho que essa música tem um sentido pra mim e pra todos os atingidos, ela vai lá na ferida e diz tudo o que tem que ser dito com poucas palavras. Pra gente, essa lama foi um monstro, um monstro que a gente não sabia onde estava escondido, porque a gente não tinha noção do perigo que é uma barragem de minério.