Foto: Maxwell Vilela

Nesta quinta-feira (3), atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco (Vale/BHP Billiton), visitaram a Escola Estadual Dom Silvério, em Mariana (MG), ocupada há três dias em protesto contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241. O ato de apoio e solidariedade aos estudantes secundaristas fez parte da programação do Encontro dos Atingidos “1 Ano de Lama e Luta”.

Anunciada pelo governo de Michel Temer em meados de agosto, a PEC 241 congela os investimentos em saúde e educação pelos próximos 20 anos, o que compromete futuro dos serviços à população. Conhecida como “PEC do Fim do Mundo”, a medida gerou uma série de ocupações de escolas e universidades, que já somam mais de mil em todo o país.

“Vocês são guerreiros, estão dando uma aula de luta e cidadania para o povo brasileiro, para garantir que a gente não retroceda nos direitos já conquistados com muito suor”, parabeniza Pablo Dias, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Ele reforça que a luta dos atingidos é a mesma que a dos estudantes, pois ambos os grupos estão sendo afetados pelas medidas de retirada de direitos do governo de Temer.

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Foto: Lidyane Ponciano

“Nós somos juventude, mas temos que estar junto das mulheres, da negritude e de todos os oprimidos, devemos no entender enquanto povo”, afirma Iara Cássia, militante do Levante Popular da Juventude. O movimento está acompanhando a ocupação no Dom Silvério, buscando apoiar e levar a experiência do Levante para somar aos estudantes, já que o grupo tem acompanhando ocupações em todo o país desde o início das mobilizações. Em Minas Gerais, o movimento compõe a mobilização contra a PEC 241 em escolas nos municípios de Uberlância e São João Del Rey e na universidade de Lavras.

Solidariedade

Professora de língua portuguesa Cláudia de Oliveira está surpresa com a experiência da ocupação e com o apoio do corpo de trabalhadores da escola. “Isso aqui é muito bom. Muitos alunos ficavam apáticos durante as aulas. Agora, você vê os estudantes coordenando toda uma estrutura de ocupação da escola e percebe como não conhecemos nossos alunos. A gente percebe como eles se envolvem quando eles acreditam em uma coisa”, reflete.

Durante o bate papo com os 50 estudantes presentes na escola, trabalhadores da educação decidiram em assembleia apoiar a iniciativa dos jovens. Será elaborada uma carta pública, para esclarecer à sociedade que os estudantes estão comprometidos com a manutenção do espaço. “A coordenação pedagógica da escola está sob o comando dos estudantes. Cabe a nós apoiar no que podemos”, afirma Cláudia. O grupo de professores definiu a composição de comissões de comunicação, infraestrutura e diálogo com os pais.

Organização

A coordenação da ocupação é composta por estudantes e professores. Do lado dos alunos, as comissões são divididas em saúde, segurança, comunicação e alimentação. Os jovens realizam reuniões de coordenação pela manhã e oficinas ao longo do dia, como forró, skate, atividades culturais e debates. “É preciso que fique claro que não estamos aqui para ficar sem aula, mas para lutar pelos próximos 20 anos da educação. Tem gente querendo nos derrubar, mas podem ter certeza que a gente não vai cair”, afirma uma das estudantes, que prefere não ser identificada.

A atingida do Vale do Jequitinhonha Liliane do Barros Nascimento acompanhou a visita na ocupação e disse estar emocionada. “No nosso tempo, estudar era muito difícil. Hoje, essa juventude já tem maior facilidade, mas com essa PEC 241 do Temer vai acabar com tudo no nosso país. É por isso que essa ocupação é muito boa, os jovens de hoje são o futuro do país”, anima-se.

Uma estudante do primeiro ano, que também não quer ser identificada, afirma que a relação dos estudantes com a escola irá mudar após a ocupação. “A gente já valorizava a escola antes, mas agora, com a gente correndo atrás de tudo aqui pra dentro e tendo a consciência do tamanho da responsabilidade, acho que a gente se sente mais sensibilizada com a escola depois disso”, comemora.