Foto: Ísis Medeiros 

Diante das águas sujas do Carmo que desce todo enlameado para abraçar o Piranga, o pensador reflete profundamente sobre o tempo em que vivemos. Ele observa a lama que continua descendo, seja pela falha contenção que tenta segurar o rejeito em Bento Rodrigues, seja pelas chuvas que carregam os minérios que estão depositados às margens. A tragédia não terminou em 5 novembro de 2015. Ela é crescente, contínua, “um bicho vivo” que dia-a-dia vai engolindo a vida e os sonhos na bacia do rio Doce.

Não é preciso lembrar que as palavras têm força. Elas mobilizam nossas consciências. São entidades de sentido que organizam a forma com que pensamos as coisas. Será que estamos falando de um desastre? Natural ou tecnológico? Ou será uma tragédia? Pode ser ainda um evento, um ocorrido. Alguns arriscam a dizer até que foi acidente... 

O que matou 19 pessoas e causou um aborto forçado pela lama em Bento Rodrigues foi a irresponsabilidade e a ganância da Samarco Mineração S.A, na verdade Vale e BHP Billiton, as maiores mineradoras do mundo, somadas à negligência do Estado brasileiro que está organizado para existir em pela solidariedade com o capital. Foi o resultado de um modelo minerador excludente, atrasado, desumano, que ignora comunidades, explora, adoece e mata trabalhadores, que reforça o Brasil como uma colônia, mantendo a nação em um padrão de desenvolvimento pífio e empobrecedor.

Não foi um acidente! Foi um crime! E a conclusão não está apenas baseada nas extensas investigações do Ministério Público e da Polícia Civil de Minas Gerais. Está na memória do povo que vivia amedrontado com o risco de morar debaixo de uma bomba relógio, mas sempre ignorados pelas mineradoras. Uma tragédia anunciada que poderia ter sido evitada com medidas simples para empresas de tamanho porte. Mas, investir em segurança não dá lucro. Mais importante é ostentar a marca vencedora de vários prêmios de eficiência para alcançar o posto de 10ª exportadora do Brasil.

Sete meses depois, os problemas crescem. Em Mariana, mais de 300 famílias ainda estão morando em casas alugadas. Além de todo o debate sobre o futuro reassentamento, que avança lentamente, o que preocupa é o problema invisível e ignorado. Melancolias, depressões, alcoolismos, pânicos, surtos, tristeza...por terem perdido a comunidade, o convívio, a memória. Quem pagará por isto? É uma morte que nunca acaba. Consome lentamente. 

Em Barra Longa, a população adoece. Foram 3 casos de dengue confirmados entre 2013 e 2015. E 174 casos nos primeiros 5 meses de 2016. Apesar de alarmante, é um dado defasado porque as multidões que encheram o posto de saúde local deixam claro que mais de 400 pessoas foram infectadas. As que não foram, estavam doentes por causa do caos. Uma cidade que viu casas, comércios, praças, campo de futebol, igrejas serem destruídos sendo depois transformada em um canteiro de obras que chegou a ter 650 trabalhadores! Não é preciso dizer muito para se avaliar o que isto significa para uma cidade povoada desde 1701 e que hoje tem cerca de 6 mil habitantes.

A tarefa do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é levar informação para estas famílias, organizar coletivamente todas as demandas e pressionar governos e empresas para que respeitem os direitos. Nosso trabalho é tornar os atingidos protagonistas de sua história, especialmente as mulheres e os jovens. Construir coletivamente ações de longo prazo que reconstruam a vida. 

Tirar o rejeito, limpar e reformar casas, fazer reassentamento....Obrigações mínimas da Samarco que não vão resolver o problema. E a lama que entra nos pulmões pela poeira do rejeito? E as depressões e tristezas pelas percas irreparáveis? E o barro que entrou na alma do homem e da mulher que vivem este trauma? É por eles que nosso trabalho existe.

Samarco, Vale e a BHP Billiton destruíram o Rio Doce. E o pensador à beira do rio lembra do poeta. Parece que Carlos Drummond de Andrade profetizava quando escrevia: “O Rio? É Doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse mais leve a carga. Entre estatais e multinacionais quantos ais!” Isto em 1984 no jornal Cometa Itabirano.
Mas, serão os atingidos e atingidas, em toda a bacia do rio Doce, no campo e na cidade, que organizados e protagonistas renovarão a vida e a esperança onde a ganância provocou apenas dor. Águas para a vida! Não para a morte!

Thiago Alves mora em Barra Longa. É jornalista e membro da coordenação do MAB em Minas Gerais.