Fotos: Mídia Ninja

Enquanto o Governo Federal e os governos dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo comprovam sua submissão assinando um acordo com a Samarco Mineração S.A, de propriedade da Vale e da BHP Billiton, os atingidos pela Barragem de Fundão demonstram sua indignação com o andamento das ações da mineradora que permitiu o maior desastre ambiental da história do Brasil.

Na cidade de Barra Longa (MG), os atingidos realizaram mais uma semana de atividades. Entre elas, na terça-feira (01) esteve o Dia de mobilização por direitos, dignidade e justiça, organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que vem acompanhando os moradores na cidade desde o desastre em 5 novembro.

Barra Longa é uma cidade de menos de 7 mil habitantes, que registra povoação desde 1701. Confundida no noticiário com um povoado, comunidade ou mesmo como um distrito de Mariana, a cidade emancipada desde 1938 enfrenta a maior crise social de sua história, sendo transformada em um canteiro de obras. São mais de 650 funcionários de 15 empreiteiras que tentam recuperar os estragos causados pela lama que chegou na madrugada do dia 6 de novembro. O rejeito invadiu o município doze horas depois do rompimento em Bento Rodrigues, pegando a população de surpresa. A Samarco não deu aviso oficial sobre o desastre e ninguém se preparou.

“E por isto que estamos aqui. Este dia de mobilização é para marcar presença, mostrar que queremos nossa cidade limpa, sem doenças, sem este barulho terrível em um lugar que foi sempre pacato”, afirma a integrante da coordenação local do MAB, Mércia Paglioto.

Ruas estragadas, esgoto entupido ou a céu aberto, poeira de rejeito sujando as casas, trânsito intenso de veículos, trincas nas casas, ameaças a prédios históricos. A lista de problemas é extensa, mas há que se destacar o caos na saúde pública. Se em 2015 foram registrados dois casos isolados de dengue, até 2 de março de 2016 já eram 128 casos confirmados, conforme informe da Secretaria Municipal de Saúde, que já considera a doença fora do controle.

Além disto, registra-se um aumento considerável de alergias respiratórias e dermatológicas, atendimentos com dores de cabeça, insônia, estresse, etc. A depressão e os problemas emocionais decorridos da memória da tragédia e de seus desdobramentos deixam claro que a população vive sob o efeito de um trauma coletivo típico de grandes desastres.

“Não há dúvida de que os caos na saúde está diretamente ligado ao desastre da Samarco. Nunca tivemos dengue em nossa cidade. Agora, estamos neste surto sem controle. Eu, minha esposa e minha filha pegamos dengue. Passamos o carnaval doentes. Foi uma experiência terrível,” conta o cantor e militante do MAB, Fafá da Barra.

Samarco manobra para desmobilizar, mas atingidos resistem

Foi contra todo este caos que a população se mobilizou. Porém, para impedir a repercussão, a Samarco tentou desmobilizar as famílias. Marcou três reuniões no mesmo horário da manifestação ligando para elas durante a noite anterior. Mesmo assim, os atingidos mantiveram o plano e, junto com os estudantes e professores do turno da manhã da Escola Estadual José Epifânio Gonçalves, tomaram as ruas da cidade fechando o trânsito.

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A Samarco marcou as reuniões para atender uma reivindicação do MAB. Ampliou o direito ao cartão subsistência e pagou 58 adiantamentos de indenização em um total de mais 1 milhão de reais. “Foi uma vitória do povo”, avalia Mércia Paglioto. “Pedimos isto desde novembro. Temos a clareza de que estas conquistas só aconteceram por causa do esforço que estamos fazendo para que todos os atingidos participem, levando informação e construindo o protagonismo”, considera Mércia.

Durante a manifestação, os atingidos ficaram sabendo que uma das reuniões que seriam realizadas na prefeitura havia sido adiada para a tarde. Então, um dos encaminhamentos foi um grupo retornar ao prédio para entrar na reunião.

Às 14 horas, os atingidos retomaram a mobilização pedindo para entrar no encontro que reunia advogados e engenheiros que estavam discutindo “questões técnicas de engenharia e pagamento de tributos”. Após esperar mais de uma hora por uma resposta sobre como a população participaria, as famílias decidiram entrar no prédio e ocupar o saguão de entrada e os corredores, obrigando a empresa a se manifestar.

“Recebemos respostas evasivas, mas fazer este movimento foi muito importante para a Samarco entender que a população quer participar efetivamente de todos os espaços, é direito dela e disto não abrimos mão. Não existem aqui questões técnicas. Tudo aqui tem a ver com a vida das pessoas e por isto nos interessa.”, comenta o militante do MAB, Serginho Papagaio.

Para Andreia Luiza Tolentins, também do MAB na cidade, nesta semana os atingidos demonstraram que estão fortes. “Na quarta-feira realizamos a 9ª reunião de negociação coordenada por nós e pressionamos a Samarco. Falamos claramente contra o acordo federal fechado sem a nossa participação. Foram dias também para reafirmar a importância das lutas nacionais do MAB que acontecerão dias 7, 8 e 9 de março”, afirmou Andreia.

Na opinião de Fafá da Barra, o Acordo Federal ignorou Barra Longa. “Recebemos a promessa que nossa cidade teria uma cláusula que garantisse prioridade, mas não sabemos se eles cumpriram porque não tivemos acesso ao documento. Foi um processo antidemocrático e demonstrou a submissão dos governos. Mas continuaremos unidos e em luta para que nossos direitos sejam respeitados, aqui e em toda bacia do Rio Doce” concluiu Fafá.