Ouvir o desabafo de uma mulher que perdeu o filho durante o crime ambiental da Samarco/Vale/BHP-Billiton, em Mariana (MG), num aborto involuntário, não é das tarefas mais fáceis. Difícil relatar em palavras tanta dor. Eu estava acompanhado de mais dois companheiros do MAB, Movimento dos Atingidos por Barragens. Apenas sentamos do lado dela para convidar sobre uma reunião de organização e ela começou a desabafar. “Já não tenho nem mais lágrimas, de tanto de chorar”, nos disse. Com o gravador ligado ela falou de uma só vez, sem precisar fazer muitas perguntas.

Em respeito a sua dor e sua família não fiz foto e nem citarei seu nome. Esta jovem mulher, mãe, que não deve ter nem 30 anos, com algumas marcas em seu corpo, ainda se recupera das lesões. Seu olhar longínquo e sua fala indignada emociona.

Durante seu relato, chegou o cunhado e disse que ela foi arrastada pela lama por mais de 1km. Ela consentiu com um aceno.

Segue o relato:

“Na hora que soube que a lama descia, segurei meu menino de dois anos pelo meio e fui para a casa da vizinha que era mais alta que a nossa. Acreditávamos que ela ficaria apenas a alguns centímetros. Eu pensei que o barro viria e depois a gente limparia. Foi o tempo de entrarmos (ela, o irmão, o filho e os 3 sobrinhos) e subirmos no sofá. Segurei meu sobrinho pelo braço direito e meu filho no braço esquerdo.

Eu ia correr, mas não consegui subir o morro. Minhas pernas travaram. Olhei para trás e vi meu irmão com meus três sobrinhos em apuros e voltei para ajudá-lo. Ele com o filho de 4 anos no colo e o outro atrás dele. Quando percebemos a lama dentro da casa, já estava na altura do joelho. A residência dela era grande e quando vi o fundo caindo, como se fosse um papelão se amassando, com a lama engolindo tudo, segurei os meninos com a força que eu tinha.

Quando afundei e voltei, a primeira coisa foi olhar para meus braços se certificar se as crianças ainda estavam comigo, mas eu os perdi. Rezei na hora a Deus para proteger meus filhos, meu irmão e meus sobrinhos desta porcaria toda. E quando eu pensava que estava livre, vinha outra onda e me mandava mais longe. Ai eu me levantava para reconhecer onde estava e não via ninguém. Pensei em me agarrar em alguma coisa, mas tudo que eu segurava afundava. E as ondas me arrastavam.

Eu pedi a Deus que se fosse da vontade Dele, deixasse meu filho sobreviver, mas se fosse para ele morrer, eu entenderia. Foi quando senti meu filho sair da minha barriga, caindo pelas minhas pernas. Pode ter sido melhor assim, pois engoli tanta lama que ele poderia nascer sem saúde.

Vi um caule de bananeira e debrucei em cima, peguei uma folha de palmeira e fiquei acenando. Pedi ajuda para um homem que vi de longe, mas tudo que eu agarrava para chegar mais perto dele afundava. Ele jogou um galho de árvore e me puxou. Eu já estava fraca e quase sem voz. Depois ele conseguiu resgatar meu sobrinho também.

Pensei que iria morrer e que naquelas alturas os meninos já estavam mortos. A gente não imagina que uma criança de dois anos (seu filho), meninos de quatro, cinco e de oito (seus sobrinhos) iriam sobreviver (seu irmão foi encontrado e hospitalizado na sequencia). Pensei que também iria morrer. Até hoje sinto dores no corpo. Perdi meu filho de 3 meses e minha sobrinha, que 40 minutos antes foi em casa e ao sair me pediu benção. Vou lutar por meus direitos até o fim. Dinheiro nenhum vai trazê-los de volta. Mas não vou desistir.

Se fosse durante a noite, ninguém teria se salvado. E até hoje não acredito no que aconteceu. Ainda quero ir lá em Bento Rodrigues para ver o que aconteceu. Eu sei que lá está tudo destruído. Vejo reportagens, vejo fotos e jornal. Mas quero ir lá. Minha ficha ainda não caiu. Prefiro ficar lá em cima (no quarto do hotel), quietinha. Pensando. Só desço quando é necessário.

Nunca mais vou ter meu cantinho. Meu cantinho. Foi difícil construir ele. Me entregaram esta casa no dia 11 de abril do ano passado. E hoje olho para trás e vejo que nunca mais vou ter uma casinha igual. Mesmo se fizerem o mesmo projeto não será a mesma coisa. Não vai ter a rua que meu filho e meus sobrinhos brincavam. Minha casa e do meu irmão era colada uma na outra. No domingo passado, estava todo mundo na casa da minha mãe. Meus tios, meus irmãos. Molecada brincando de bola. Minha mãe fez broa. Estava todo mundo feliz.

E não tenho mais cabeça para reunião (da Samarco). A gente não pode nem falar direito porque não dá tempo. Eles terminam a reunião e vão embora. Entra cada um no seu carrinho e ó, dá o fora. A psicóloga perguntou se quero fazer tratamento. Quero não. Quem bate esquece, quem apanha não. Depois que tudo isto regularizar. Eles voltarão a ganhar o dinheiro deles. Milhões às nossas custas. Nunca vamos esquecer.”